O simples contato do carboidrato na boca do atleta pode aumentar seu rendimento
po Dr. Ricardo Teixeira
Quando vemos um atleta ingerindo soluções especiais ou alimentos durante uma prova de longa duração, o que vem à nossa cabeça é que ele está se hidratando e repondo calorias e sais minerais. Em provas muito longas em que há redução das fontes de glicose dos músculos (glicogênio), é reconhecido que os atletas que repõem carboidratos durante a atividade têm melhor desempenho. Entretanto, em provas mais curtas, como grande parte dos esportes coletivos, ainda é discutível se a reposição de carboidratos é capaz de trazer algum tipo de benefício, e há estudos que confirmaram esse benefício, enquanto outros não. Faz sentido duvidar desse efeito, já que numa prova de uma hora de duração, sabe-se que a contribuição das fontes de glicose dos músculos é mais importante do que o nível sanguíneo da glicose. Além disso, a quantidade de carboidrato que o organismo consegue absorver nesse período não é muito relevante, não passando de uns 20g.
Talvez o possível efeito positivo da administração de carboidratos não seja diretamente nos músculos, mas sim no cérebro. Essa possibilidade tomou mais corpo após alguns recentes estudos que demonstraram que a injeção de glicose na veia não foi capaz de melhorar o desempenho do atleta, enquanto o mero contato na boca de solução de carboidratos sem sabor doce (Maltodextrina) foi capaz de melhorar o desempenho. Isso levantou a hipótese de que os carboidratos se ligam a receptores na boca (ainda desconhecidos), independentemente de ter sabor adocicado, que ativariam o sistema nervoso central e que por sua vez melhoraria o desempenho do atleta.
Um novo estudo recém-publicado no The Journal of Physiology foi mais além. Pesquisadores da Universidade de Birmingham administraram três tipos de bebidas a ciclistas bem treinados: solução à base de glicose 6,4%, outra à base de Maltodextrina e outra só de água. Foi adicionado adoçante artificial às três soluções para que ficassem com sabor parecido, e solicitado aos atletas que apenas colocassem a solução na boca por 10 segundos e depois a cuspissem fora. Usaram a solução por oito vezes durante repetidos treinos de ciclismo de uma hora e apresentaram melhor desempenho quando usaram as soluções que continham carboidratos, e pior desempenho com a solução de água.
Os pesquisadores ainda avaliaram a resposta cerebral ao contato na boca de cada tipo de solução através de ressonância magnética funcional. E o resultado foi que ambas as soluções de carboidrato ativaram regiões cerebrais do sistema de recompensa cerebral, que também é ativado quando comemos de verdade algo prazeroso, ou quando experimentamos diversas outras formas de prazer. Os resultados sugerem que os carboidratros ajudam no desempenho dos atletas ao fazerem com que o cérebro dê um empurrãozinho como, por exemplo, ao perceber menos sinais de cansaço. O estudo ainda sugere que existem receptores na boca capazes de enviar sinais ao cérebro quando entram em contato com carboidratos. Ainda não se conhece que receptores são esses.
:: Dr. Ricardo Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp. Atualmente, dirige o Instituto do Cérebro de Brasília (ICB) e dedica-se ao jornalismo científico. É também titular do Blog “ConsCiência no Dia-a-Dia” www.consciencianodiaadia.com e consultor do Grupo Athena.
O conteúdo publicado nesta coluna é de total responsabilidade de seus autores (colunistas e leitores), e não corresponde necessariamente a opinião da Treino Total.

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