autoria  Sergio Sheman*

Quem já não ouvir dizer que o corpo humano teria, hipoteticamente  uma  “limitação” para assimilação das proteínas ingeridas e que qualquer quantidade acima de 30g por refeição seria excesso, SERÁ ? Por isso a idéia de distribuir o total diário de proteínas ingeridas em varias doses pequenas. Mas de onde é que sairam essas 30g?  Deve-se ingerir qualquer coisa em torno de 30g por refeição independentemente do peso, idade, sexo, perfil metabólico do individuo ? Um consumo maior que esse resultaria em uma sobrecarga renal devido o excesso? Afinal de contas “o que realmente  seria excesso ?” Alguém pode me dizer, por favor, quanto deve-se ingerir de proteína?

Perdi a conta do número de artigos e estudos realizados pelos mais diversos e renomados teóricos da ciência e, por incrível que pareça, NÃO existe  unanimidade na questão. Cada um sugere uma determinada quantidade para que não haja uma sobrecarga; 0,5g / kg / dia, 1,0g / kg / dia, 1,5 / kg /dia e por ai vai . O artigo mais recente que li, escrito por uma nutricionista que não importa o nome, sugeria categoricamente e com toda a propriedade do mundo que : “um individuo adulto com peso normal (alguém pode me explicar o que é peso normal, rs rs), deve ingerir 0,8g de proteína por kg de peso corpóreo ao dia, ou, 10 a 35% do valor calórico total da dieta sob a forma de proteína “. Parece muito bonito. Agora, analisemos a questão:  imaginem um individuo  com cerca de 70kg, 1,70m de estatura e com uma média etária de 30 anos; 0,8 por kg de peso totalizariam cerca de 56g de proteínas diárias (0,8 X 70kg), ou ainda, segundo a autora 10 a 35% do total calórico diário. Isso significa, de acordo com um dos protocolos mais utilizados para cálculo de necessidades calóricas  (Harris Benedict, revisado por David C. Frankenfield ) que o gasto calórico para um indivíduo com as características acima e com atividade física moderada seria em torno de 2600 Kcal. Isso quer dizer que 10% desse total proveniente das proteínas  dariam 65g  (10% de 2600 ÷ 4, por que cada grama de proteína tem 4 calorias) – o que já é mais do que os 0,8 por kg (56g), se utilizarmos então os 35% conforme sugerido, o valor seria de 227,5g !  227g  dariam 3,2g de proteína por kg de peso dia (227 ÷ 70kg) .  Me ajudem, por favor, eu devo ingerir 0,8g ou 3,2g ( 4 vezes mais) de proteína por kg / dia ? A diferença é enorme. Se minha TV não estivesse desligada acharia que estava assistindo um episódio de “LOST”, rs!

Piadinhas à parte, a bem da verdade, o reflexo do consumo excessivo de proteína na doença renal tem sido estudado há anos, mas ainda não há evidências suficientes que comprovem que a alta ingestão desse macronutriente possa causar danos renais em indivíduos saudáveis, e que, portanto, possuem um funcionamento normal dos rins. (Knight EL, Stampfer MJ, Hankinson SE, Spiegelman D, Curhan GC. The impact of protein intake on renal function decline in women with normal renal function or mild renal insufficiency. Ann Intern Med. 2003;138(6):460-7)

Algumas explicações para a possível relação entre uma alta ingestão de proteína e algum dano renal consistem no seguinte: como os rins eliminam os subprodutos do metabolismo da proteína ( uréia, amônia, entre outros), seu consumo elevado pode aumentar a taxa de filtração glomerular (processo pelo qual se forma o filtrado glomerular, sangue filtrado antes de se transformar em urina), isso causaria um aumento da pressão dentro dos glomérulos, fazendo com que a função renal seja prejudicada progressivamente.

Apesar disso, alguns autores acreditam que essas alterações na função renal geradas pelo consumo excessivo de proteína são adaptações fisiológicas normais do organismo humano, certamente que dentro de um limite da capacidade renal. Um bom exemplo é o que acontece com as gestantes, que precisam aumentar sua ingestão calórica total, com conseqüente aumento da proteína alimentar, o que poderia aumentar em até 65% a taxa de filtração glomerular. Nem por isso elas sofrem algum dano renal (Martin WF, Armstrong LE, Rodriguez NR. Dietary protein intake and renal function. Nutr Metab (Lond). 2005 Sep 20;2:25). Fisiculturistas em alguns casos chegam a ingerir 500 ou 600g de proteína/dia.  Se fosse assim,  já estariam sem os rins, rsrs. No entanto,  encontram-se bem saudáveis !

É importante lembrar que, mesmo não havendo comprovações científicas de danos renais com a elevada ingestão de proteína, devemos tomar alguns cuidados. Por exemplo, quando há excesso de proteína na circulação, esse será degradado e depois armazenado na forma de gordura. Outro agravante é que o consumo em excesso pode causar um aumento da excreção de cálcio e, portanto, diminui a utilização deste mineral.

Apesar de tudo, até o momento,  em indivíduos saudáveis não há necessidade de restrição na ingestão de proteínas. Por outro lado,  alguns cuidados seriam prudentes  para indivíduos com antecedentes de alguma nefropatia no que tange as dosagens. 
*Sergio Sheman

Biochemistry / Specialist in Performance Nutrition (ISSA-USA) / Physical Trainer (since 1985). Mais de 20 anos dedicados a Ciência da Musculação onde tem atuado como Teórico, Preparador Físico e Atleta. Sheman tambem é proprietário da SHEMAN SPORTS ADVISOR , empresa de Assessoria Esportiva que, entre outras coisas, prepara atletas de elite, alguns já consagrados  no  Boxe, MMA e Fisiculturismo. Contato:   sergiosheman@hotmail.com

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